O filme norte americano Perdido em Marte (2015), dirigido por Ridley Scott e protagonizado por Matt Damon, narra a história do astronauta e botânico Mark Watney, que integra uma equipe enviada em uma missão científica a Marte. Durante uma tempestade, Mark se acidenta e é abandonado pelo restante da tripulação que o considera morto. Contudo, ao acordar, o astronauta se vê sozinho e com poucos suprimentos para sobreviver no planeta vermelho. Tem início, então, a saga de Mark para tentar sobreviver ali por alguns anos e encontrar uma maneira de retornar para a Terra.

A película foi inspirada no livro The Martian (2011), de Andy Weir e apresenta um cenário realista, elaborado a partir de imagens captadas por robôs atualmente enviados para Marte. Para além de todos os efeitos e aspectos tecnológicos, o filme nos ajuda a pensar a relevância ou não de conhecimentos transmitidos nas escolas e destaca a importância da existência de relações políticas colaborativas e harmoniosas entre os países para o desenvolvimento científico e, sobretudo, para salvar vidas.

Seguem abaixo comentários do professor de física do IFMG Antônio Marcos Vieira Costa, o Toninho.

Apesar da minha formação na área de Ciências, quando assisto a um filme não fico questionando metodicamente o que é compatível ou não com a tecnologia/ciência atual. Porém, Perdido em Marte provocou em mim um convite natural para analisá-lo a partir da distinção entre o real e a ficção.

Desafiou-me também a pensar como a Física, em especial, foi representada.  Vale lembrar que algumas películas recentes sobre esse planeta estiveram muito menos preocupadas em estabelecer conexões sólidas entre ciência e cinema. É o caso, por exemplo, de Missão: Marte (2000), Planeta Vermelho (2000) e Os Fantasmas de Marte (2001). A seguir, apresento os pontos que mais me chamaram a atenção em Pedido em Marte, pois demonstram mais claramente as relações entre a Física e a tecnologia atual.

  1. Nos filmes sobre viagens espaciais, rotas de navegação e combustíveis, geralmente, são elementos desprezíveis. Mas, em Perdido em Marte, estes temas são protagonistas da trama. Afinal, escolher a melhor rota (aquela que combine segurança, economia e menor tempo de percurso) é tão importante quanto o próprio projeto da nave ou sua tripulação. No filme, essa relação entre combustível e navegação é levada muito a sério, bem como a complexidade das manobras. O único filme em que verifiquei tal preocupação com estes temas foi Apollo 13 (1995), que é inspirado em fatos reais.
  1. A atmosfera de Marte é significativamente mais rarefeita e mais curta em relação à da Terra. Este fato cria dois pontos curiosos para o filme. O primeiro é a possibilidade de sair do planeta em uma nave que não possua uma boa aerodinâmica – como a ausência de um bico, removido para reduzir a massa total. Além disso, basta subir alguns quilômetros para encontrar-se em uma região de atmosfera desprezível, o que anularia os efeitos aerodinâmicos. Para abandonar completamente a atmosfera terrestre é necessário atingir uma altitude de aproximadamente 10.000 km (limite aproximado da exosfera). Em Marte, a partir dos 200 km já se encontra a exosfera. A exosfera é a última camada atmosférica e situa-se em uma região onde a atmosfera se confunde com o espaço exterior. O segundo ponto associado com a atmosfera de Marte é a monstruosa tempestade de areia que quase tomba a o módulo utilizado para deixar o planeta. Uma vez que o ar é tão rarefeito, uma tempestade de areia dificilmente seria capaz de empurrar algo tão pesado.
  1. A comunicação com astronautas fora Terra é feita através de ondas eletromagnéticas que, apesar de viajarem com a velocidade da luz (a maior velocidade possível na natureza), não se propagam de modo instantâneo. Essa limitação de comunicação instantânea é respeitada no filme. Quando o centro de comando envia uma mensagem para o astronauta em Marte, o mesmo só pode ler após alguns minutos. Um sinal eletromagnético gasta cerca de 10 minutos para alcançar o planeta vermelho.
  1. A paisagem de Marte não foi desenvolvida simplesmente como obra de algum artista plástico. Todos cenários e paisagens foram criados a partir da coleção de imagens coletadas pelas sondas que fotografaram o planeta no passado. Além disso, os carros e robôs foram inspirados em protótipos e missões realizadas pela NASA, a agência espacial norte-americana.

Enfim, a geração de nossos pais e avós viu a façanha da humanidade alcançar a Lua, em 1969. É bem provável que nossa geração (ou a de nossos filhos) assista a chegada de humanos em Marte. Vale lembrar que recentemente a NASA divulgou o audacioso projeto Órion, que pretende desenvolver meios de levar astronautas ao planeta Vermelho até 2030.

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