Segundo a historiadora Céli Pinto, gênero é um conceito utilizado para se afirmar o caráter cultural e social dos valores e características atribuídos a cada sexo humano – masculino ou feminino. Isso significa que grande parte das certezas que temos sobre homens e mulheres não são naturais, mas sim, criações de cada grupo humano em função das religiões, da economia etc. Em nossa sociedade, por exemplo, muitos afirmam que rosa é uma cor feminina, azul, cor masculina; mulheres seriam mais sensíveis e amorosas, por isso, mais românticas e menos preocupadas com as questões sexuais; já os homens, seriam mais práticos, objetivos e demasiadamente preocupados com sexo. Contudo, nem todos os grupos humanos possuem essas dicotomias, o que reforça a certeza de serem essas divisões dados da cultura e não da natureza.

Um primeiro estudo que evidenciou serem as identidades de gênero construções sociais foi realizado pela antropóloga estadunidense Margaret Mead e publicado em 1935 com o título de Sexo e Temperamento em três sociedades primitivas. Ao estudar a vida de três tribos da Nova Guiné, Mead queria compreender em que medida o temperamento – modos de ser de mulheres e de homens – era definido biologicamente e até que ponto era influenciado pela cultura. A antropóloga se deparou com diferentes expectativas atribuídas a cada um dos sexos, encontrando, inclusive, uma tribo que possuía maneiras de ser mulher e de ser homem opostas àquelas vivenciadas nos EUA. De fato, na tribo Tchambuli eram os homens que se preocupavam em se enfeitar, passavam longos períodos envolvidos com atividades consideradas fúteis, enquanto as mulheres trabalhavam e possuíam uma postura mais prática.

Em 1964, nos estudos do médico e psicanalista norte-americano Robert Stoller, o termo gênero foi utilizado pioneiramente para ajudar a compreender a trajetória de crianças intersexo (à época chamadas hermafroditas) e transexuais. Para o médico, enquanto sexo se referiria a questões biológicas, anatômicas, hormonais e se restringiriam a duas opções – feminino e masculino –, gênero remeteria a características culturais que conformariam identidades nem sempre em consonância com o corpo físico. Nesse estudo, Stoller concluiu que muitas vezes a anatomia corporal não correspondia ao sentimento e à identificação de gênero do indivíduo, o que geraria sofrimento intenso.

A partir da década de 1960, o movimento feminista incorporou o termo gênero como central para a construção dos direitos civis e humanos. Isso porque, as feministas reivindicam a desconstrução das hierarquizações entre os gêneros e o direito de cada um de vivenciar seu corpo, sua sexualidade, suas potencialidades com liberdade, igualdade e respeito.

Além de conceito apropriado pela luta social, as construções de gênero e suas implicações na sociedade acabaram conformando um campo de estudos e pesquisas científicas interdisciplinares que, segundo a cientista política Marlise Matos, em nada lembrariam ideologias. Trata-se de área do conhecimento que reconhece, por um lado, a construção de mecanismo de opressão e exclusão – que devem ser desarticuladas – e, por outro, reconhece a diversidade das experiências de si.

Ao evidenciar as diferenças, os estudos de gênero sinalizam para a importância da ampliação da democracia como forma de se garantir a inclusão sistemática de direitos a todos e todas independente de religião, classe social, escolaridade, sexualidade e gênero.

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Imagem retirada do blog do grupo de estudos SexUs da UFS (Universidade Federal de Sergipe)

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