Por Lawrence de Andrade Magalhães Gomes, professor de Geografia do IFMG e diretor pró-tempore do campus Ouro Branco.

Minas Gerais…. Terra tão cobiçada por suas riquezas naturais, muitas delas não renováveis. Novamente a mina, a atividade mineradora, o desejo de riqueza para uns poucos, o motivo de choro de tantos mais. Dificilmente saberemos quantos “mineiros” ou quantos escravos, desde os tempos de um Brasil colonizado, império ou republicano perderam suas vidas para retirar pedras preciosas, ouro e outros metais vis desta terra e enriquecer outras mais. 

Tantos séculos depois, queremos é saber, desta vez, quantos morreram para fazer minério de ferro virar fortuna para uns poucos por aqui. Agora nos cabe repensar e aprender muito mais.Completaram-se pouco mais de dois meses desta tragédia: Duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco (Vale/BHP) se romperam. Desde então o rio Doce ficou duramente amargo e a vida de variadas populações foi comprometida profundamente. De acordo com as empresas ambientais contratadas, cerca de 2300 espécies aquáticas foram afetadas em um trecho de apenas 180 km, isso somente em um mês de diagnóstico. Estima-se que onze espécies de peixes provavelmente foram extintas. Quanto vale a vida desses peixes? E dos anfíbios e répteis? Quanto vale a vida da avifauna e dos mamíferos? E da vegetação ciliar? Quanto vale a perda de vidas humanas? Quanto vale a memória, a exemplo de fotografias e outros objetos pessoais de valor sentimental imensuráveis, perdida pelos moradores? Quanto vale a água viva da fonte, dada pela Terra de graça à nós? Vamos perguntar à Vale?

É fato que a atividade mineradora se traduz em um importante processo que traz inúmeros resultados, engenha e transforma cobiçadas matérias primas em tantos produtos essenciais para a vida moderna. É óbvio que traz empregos, que seus empregados são pessoas que buscam fazer o melhor e que possuem famílias para sustentarem. É evidente que movimenta a economia. Mas será que a forma como é desenvolvida em nosso estado e em seus “privilegiados” municípios vale? Será que o retorno social empreendido vale? Vale repassar um percentual tão baixo aos municípios como o famigerado CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais)? Vale tais empresas serem isentas de vários impostos? Vale colocar caminhões sujos e sobrepesados nas rodovias públicas (agora concedidas)? Vale continuar influenciando nos processos políticos através de vultosos financiamentos de campanhas? Vale à pena continuar assim, haja vista que esta é uma atividade não renovável e que tais recursos, nesta proporção, são de exclusividade de poucos locais no mundo? Penso que vale e cabe fazer essas dolorosas perguntas. Cabe pensar em como será a transição para outras atividades quando este “ouro” avermelhado se findar. O que será oportunizado e qual será o legado para os nossos descendentes? Há de se refletir, há de se exigir muito mais.

Alterando-se um pouco a abordagem, faço aqui uma última “provocação”. E se a Vale e suas subsidiárias ainda fossem empresas estatais? Será que a repercussão e a forma como a mídia massiva se portou seriam as mesmas? Teria sido um acidente? Um terremoto inferior a 3 graus na escala Richter a causa do rompimento das barragens? Seria considerado normal não avisar municípios mais afastados como Barra Longa e outros tantos?

Enfim, mais uma vez vale à pena pensar… vale à pena questionar, vale à pena exigir mais rigor na aplicação das legislações. Vale muito à pena não deixar isso acontecer mais.

Informações adicionais:

  • Lira Itabirana – poema do mineiro Carlos Drummond de Andrade (1984)
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