Por Rodolpho Gauthier Cardoso dos Santos

Durante a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff no último domingo (17/04), alguns deputados federais contrários a ela utilizaram a palavra ‘populismo’ para atacar seu governo. Disse, por exemplo, o deputado Rubens Bueno (PPS-PR): “É dever deste parlamento soltar o grito de ‘basta’. Chega de populismo!”

Mas o que significa exatamente essa palavra? De modo geral, dá-se atualmente um sentido pejorativo, como algo próximo à demagogia . Para muitos, populista é aquele que age de má fé ao manipular as massas através de promessas e medidas que parecem atendê-las, mas que, no fundo, não melhoram sua situação. Nesse sentido, populista é aquele que engana o povo.

Em consequência disso, políticos, no Brasil e no mundo, fogem de tal adjetivo. No discurso de posse do seu segundo mandato, por exemplo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou: “Nosso governo nunca foi, nem é populista. Este governo foi, é e será popular”. Como Lula, inúmeros outros homens públicos de prestígio também já foram chamados de populistas por seus opositores. É o caso do candidato conservador à presidência dos Estados Unidos, o bilionário republicano Donald Trump, que também rejeitou enfaticamente o rótulo.

No vocabulário do jogo democrático contemporâneo, populista é uma ofensa usada para caracterizar os adversários que fazem de tudo para manter sua popularidade em alta. Desse ponto de vista, populistas são sempre os outros, os adversários daquele que está falando.

Além desse sentido, é importante discutir brevemente os usos dessa palavra nos livros didáticos e obras universitárias. Há décadas alguns sociólogos e historiadores utilizam tal conceito para explicar a história brasileira, principalmente entre os anos de 1945 a 1964. Nesse período, chamado por alguns de “República Populista”, destacaram-se líderes carismáticos que buscaram se ligar às massas urbanas através de forte propaganda e medidas de caráter social.

O mais conhecido teórico do populismo no Brasil é Francisco Weffort, professor de ciência política da USP (Universidade de São Paulo). Segundo ele, os políticos populistas teriam surgido a partir da crise dos grupos dominantes tradicionais. Conquistaram o voto de milhões de brasileiros que tinham saído do campo e estavam em grandes dificuldades nas cidades. Embora oriundos das elites, líderes como Getúlio Vargas teriam se fortalecido junto às classes populares atendendo a algumas de suas antigas reivindicações, como o salário mínimo, férias, aposentadoria etc. Nada disso existia no País há cem anos. Esses homens públicos também estimularam a organização dos sindicatos, mas mantiveram os operários sob constante vigilância e censura. Buscaram, enfim, o apoio político das massas sem cair no comunismo.

Em relação à América Latina, o termo populista também foi utilizado para se referir aos governos de Juan Domingo Perón na Argentina (1946-1955) e Lázaro Cárdenas, no México (1934-1940). Há vários aspectos comuns entre essas experiências: a mobilização política dos trabalhadores a favor do governo, o culto ao líder carismático, o fortalecimento do papel do Estado na economia através de medidas nacionalistas e o estímulo à industrialização.

No entanto, vários acadêmicos têm rejeitado a teoria do populismo nos últimos anos. Uma dificuldade é a generalização. No México, por exemplo, Lázaro Cárdenas foi bem menos autoritário do que Perón e Vargas. Além disso, ele tomou medidas relativas principalmente à reforma agrária, o que não aconteceu no Brasil onde houve maior preocupação com direitos aos operários. Pode-se usar o mesmo termo para caracterizar líderes tão diferentes?

Outro motivo é que, mais do que uma categoria de análise acadêmica, populista é, no fundo, um insulto, uma expressão com sentido profundamente pejorativo. Caracterizar um político dessa forma é depreciá-lo. A respeito disso escreveu o historiador brasileiro Jorge Ferreira, da Universidade Federal Fluminense (UFF):

O populista (…) é o adversário, o concorrente, o desafeto. O populista é o Outro. Trata-se de uma questão eminentemente  política e, muito possivelmente, político-partidária, que poderia ser enun­ciada da seguinte maneira: o meu candidato, o meu partido, a minha proposta política não são populistas, mas o teu candidato, o teu partido e a tua proposta política, estes, sim, são populistas. Populista é sempre o Outro, nunca o Mesmo.

Uma limitação adicional da teoria do populismo é que, em algumas obras, os trabalhadores são analisados como agentes passivos, totalmente manipulados. Entre os que defendem esse ponto de vista, há os citam como exemplo a transformação da comemoração do dia primeiro de maio. Essa data era inicialmente uma homenagem a alguns operários de Chicago que, no século XIX, morreram lutando pela jornada diária de trabalho de oito horas. Ou seja, tal festa era inicialmente um momento espontâneo de crítica do proletariado à exploração capitalista. No entanto, com Vargas no poder a data transformou-se oficialmente no “Dia do Trabalhador” e passou a ser um momento para celebrar o presidente, tido pela propaganda oficial como “pai dos pobres”.

Nos últimos anos, a ideia de uma massa passiva e manipulada tem sido bastante questionada por historiadores como Ângela de Castro Gomes, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ao invés de apontarem os trabalhadores como meras vítimas, alguns intelectuais enfatizam sua participação ativa e fundamental na pressão e negociação por direitos, mesmo em governos autoritários. Longe de estarem cegos, os trabalhadores, ainda que tivessem reduzido espaço de atuação, optaram conscientemente, em alguns momentos, por fazerem alianças estratégicas com líderes como Getúlio Vargas.

Assim, as escolhas dos trabalhadores, mesmo em contextos não democráticos, não podem ser desconsideradas sob a alegação de que se trata de “falta de consciência política” ou de um apoio comprado por medidas de cunho social. Como todos os setores sociais, as camadas populares votam de acordo com seus interesses e escolhem aqueles homens públicos que acreditam atender às suas demandas. Não se deve desprezar o calculo político ligado a essas decisões.

Por fim, o que fica dessa discussão toda em torno do termo populismo é a constatação óbvia, mas necessária, de que não há palavras neutras. Dar um nome é atuar politicamente, em qualquer instância. Fica evidente, assim, que a História, ainda que se ancore num método racional e em evidências concretas, é uma ciência profundamente humana e, por isso, sem isenção ideológica.

Para saber mais:

 

Livros:

  • FERREIRA, Jorge (org.). O populismo e sua história: debate e crítica. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001.
  • GOMES, Ângela de Castro. A invenção do trabalhismo. São Paulo: Vértice, 1988.
  • WEFFORT, Francisco. O populismo na política brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

 

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