Crônica sobre a polêmica proposta de proibir os debates políticos-ideológicos em sala de aula.

                                  Por L. Jourdan*


Abril do ano 2032. Carlinhos tinha acabado de completar 16 anos e já cursava o segundo ano do ensino médio na Escola Estadual Benjamin Guimarães, na cidade de Belo Horizonte. No ano de nascimento de Carlinhos, Mariana se formava no curso de Licenciatura de História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Também há 16 anos (Carlinhos não sabe, mas Mariana se lembra vagamente), a celebração do Oscar foi televisionada em rede nacional com comentários da então célebre atriz Glória Pires, ainda viva e atuante em pontas de novelas da Rede Globo, mas já não tão célebre como antes.

Hoje, perto de entrar nos 40, Mariana, professora de Carlinhos, acorda e olha o conteúdo programático da semana. Faz isso como um gesto automático, já que há algum tempo havia desistido de preparar aulas. Lê: Revolução Francesa parte I. Sai para o trabalho já sonhando com o horário de voltar para casa, deitar na cama e ler seu livro tranquilamente. Mas isso ainda iria demorar algumas horas. Antes, teria que participar de uma reunião de professores para discutir os processos de assédio intelectual que estavam em andamento e dar quatro aulas sobre a Revolução Francesa, seguindo os preceitos da nem tão nova política educacional instaurada também há 16 anos, quando Mariana saía ainda cheia de sonhos da Universidade.

No início ela e os amigos faziam piada da reforma escolar, não achavam que algo tão grotesco realmente viria a acontecer. Mas com o tempo, as demissões, as multas e indenizações pagas por professores da rede pública e de escolas privadas mais tradicionais, Mariana foi se adaptando. E se antes de terminar o curso de História seu maior motivador eram alunos interessados e questionadores, hoje eles se tornaram seu pior pesadelo. Poucos são os sortudos que conseguem uma vaga para lecionar em escolas alternativas, que ainda mantêm certa autonomia. E as contas do final do mês definitivamente não querem saber se você está ou não satisfeito com seu trabalho. Mariana entra na sala de Carlinhos pensando que um dia a Revolução Francesa sairá do currículo escolar, ou que isso só não tinha acontecido para garantir que os filhos da classe média não fizessem feio ao passear na Europa.

Iniciou a aula na certeza de que seria mais adequado começar com a expressão “era uma vez, num passado distante”… Mas não o fez. Falou dos sans-culottes, jacobinos, do clero, nobreza, reis e rainhas sem, em nenhum momento, insinuar qualquer ligação daqueles eventos com o mundo vivenciado aqui e agora. De qualquer maneira, estava cada vez mais difícil estabelecer alguma relação entre o lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade e aquela zona político-religiosa-censuradora que viviam. Descreveu o contexto econômico da época se limitando aos altos impostos pagos pela burguesia e à fome decorrente de um frio extremo que havia acabado com as plantações. Nada como culpar o clima pelas mazelas do povo. Citou a queda da Bastilha, sem mencionar que era uma prisão essencialmente de presos políticos, mas lembrando que hoje a data é comemorada com muitos fogos de artifício em Paris, caso algum aluno quisesse fazer o passeio turístico nas férias de julho.

Mariana preferiu passar batido pelas críticas feitas à Igreja durante a Revolução. Pra quê mexer com isso, certo? Já havia problemas suficientes para justificar o fim de um sistema autoritário e a tomada do poder por uma burguesia que pregava pela liberdade e pela baixa de impostos, com o apoio daquela massa amorfa, que dá tom de credulidade a qualquer movimento histórico: o povo. A professora explicava o posicionamento dos grupos na Assembleia dos Estados Gerais: Jacobinos e Girondinos à esquerda, enquanto a nobreza estava à direita do Rei.

Logo em seguida, passaria para as ideias defendidas por cada grupo. Essa sempre foi uma parte tensa, mas Mariana já havia percebido que se omitisse o termo Reforma Agrária e apenas dissesse que os Jacobinos repartiram as terras da Nobreza e do Clero, tudo ficaria bem. Não havendo nenhum questionamento até aí, ela estava a salvo. A parte da Declaração Universal dos Direitos do Homem seria só na aula que vem, até lá os alunos provavelmente já teriam esquecido o conteúdo de hoje. Ela observou a turma procurando algum olhar inquisidor. Respirou aliviada quando viu que metade da sala estava mergulhada na realidade virtual de seus smart watches, uma parte dormia, e se questionou sobre a presença mental daqueles que pareciam acordados e atentos. Foi quando se deparou com Carlinhos, de mão levantada.

-Sim Carlinhos, pode perguntar.

-Professora, esse negócio de distribuir as terras não é a reforma agrária?

Mariana procurava o que responder. Os olhos que antes estavam vidrados nas telas agora a observavam fixamente, os que já pareciam prestar atenção piscaram e se ajeitaram nas mesas, e os que estavam dormindo, assim continuaram.

-É Carlinhos, a ideia é a mesma.

-Mas os comunistas não são bem depois?

– É Carlinhos. Mas a ideia da reforma agrária é anterior.

-Mas meu pai falou que quem quer fazer a reforma agrária aqui no Brasil é comunista. É isso?

Pronto. Comunistas, comunismo e o pai do aluno em uma mesma pergunta. Já tinha visto amigos perderem o emprego por menos que isso. Mariana olhou para o aluno, se voltou para o cartaz que se encontrava na parede atrás dela: “Está proibida por lei a doutrinação política, religiosa e sexual dos alunos pelos professores”, e lembrou-se da Pedagogia Pires, que aprendeu na mesa dos bares, com seus colegas de profissão. Respirou e respondeu:

– Desculpe, mas não posso opinar – E seguiu sua aula.


*Laetitia V. Jourdan é antropóloga, bacharel em ciências sociais pela UFMG e mestre em antropologia aplicada ao desenvolvimento sustentável na Universidade de Provence. Franco-brasileira, na procura de tentar se encontrar no mundo e se conhecer melhor, descobriu seu desejo pela escrita. Hoje, faz experimentos no atelier Estratégias Narrativas em busca de um estilo, de uma história, de uma maior compreensão de si e dos outros.

Para saber mais:

SIM – Por Lincoln Secco, professor de História da USP (Universidade de S. Paulo)

NÃO – Por Miguel Nagib, coordenador do Escola sem Partido

Observação: imagem retirada deste link.

 

 

 

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