Por: Paula Elise Ferreira Soares e Rodolpho Gauthier Cardoso dos Santos

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Esse número, ao que tudo indica, ainda não corresponde à realidade, já que o estupro é o crime com maior taxa de subnotificação do mundo, com destaque para nosso país. Ou seja, trata-se do crime menos denunciado quando ocorre. Segundo pesquisa realizada pelo instituto de pesquisa DataFolha, 90% das mulheres tem medo de ser estuprada e, em 70% dos casos registrados, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o estuprador é parente, namorado, amigo ou conhecido da vítima.

No dia 25 de maio de 2016, a notícia do estupro de uma jovem de 16 anos por 33 homens no Rio de Janeiro deu uma concretude monstruosa a esses dados que, a princípio, podem parecer desprovidos de realidade. A adolescente foi dopada e estuprada por trinta e três homens. Eles não apenas cometeram esse crime, como gravaram vídeo e divulgaram nas redes sociais, levando outras pessoas a corroborarem a violência compartilhando e comentando a prova. Esses 33 homens, que se uniram para cometer tal barbaridade, possuem patologias mentais? Muito provavelmente não.

A explicação para um episódio hediondo como este pode ser encontrada em nossa cultura. Ela está nos valores, padrões, comportamentos e, até mesmo, nas piadas e comentários que são partilhados cotidianamente e que sexualizam e subjulgam a imagem da mulher, que a apresentam como um corpo destinado a trazer prazer ao homem com ou sem seu consentimento.

Desde a década de 1970, estudiosas como Noren Corel e Cassandra Wilson passaram a utilizar a expressão cultura do estupro para evidenciar como nossa cultura patriarcal legitima, justifica e até incentiva a ocorrência desses crimes. Quem não se lembra do ator Alexandre Frota, em um programa de TV, narrando o estupro que teria cometido contra uma mãe de santo (narração que foi acompanhada de risadas da platéia) ou do deputado federal Jair Bolsonaro (cuja popularidade vem crescendo) que, em discussão com a deputada Maria do Rosário afirmou que não a estupraria porque ela não merecia? Fica implícito nessa fala que Bolsonaro, como tantos outros, considera que existem mulheres que merecem ser estupradas…

A culpabilização das mulheres gera o silenciamento sobre as violências sofridas. Em muitos casos, as vítimas sequer conseguem nomear a agressão vivida. Esse, talvez, seja o lado mais nefasto da cultura do estupro: a naturalização do abuso e do jogo psicológico envolvido. Meninas que não sabem nomear como assédio os recorrentes comentários e insinuações inapropriadas que podem partir de colegas, vizinhos, professores e parentes. Não percebem que tais situações são formas de agressão que devem ser denunciadas e interrompidas. Em uma cultura machista, muitas são incentivadas a considerarem como elogios e como reconhecimento o que, com frequência, não passa de puro e simples assédio sexual. Em consequência disso, muitas dessas mulheres passam longos períodos buscando compreender o que elas teriam feito para “gerar” tal situação. Além de violência física, a cultura do estupro gera profunda violência psicológica.

É por serem tão generalizados e internalizados os preceitos da cultura do estupro que as agressões sexuais partem com tanta frequência de pessoas que possuem proximidade com a vítima. Isso também nos explica porque tantos homens e mulheres legitimam as formas de abuso e confundem sexo com violência.

Infelizmente, estupros fazem parte do cotidiano de muitas mulheres do país. A cultura do estupro vem se perpetuando e deve ser combatida através de discussões sobre as opressões de gênero nas escolas. Desmascarar essa cultura patriarcal e combatê-la é a melhor forma de nos unirmos a essa adolescente de 16 anos, nos solidarizando, e a melhor maneira de evitar que novas mulheres sejam vítimas.

Abaixo, o vídeo da campanha #EstuproNuncaMais:

Para saber mais:

 

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