Por Rodolpho Gauthier Cardoso dos Santos

O terrível massacre cometido em uma boate gay na cidade de Orlando, no último dia 12 de junho, despertou em muitos uma melancólica sensação de incompreensão. Diante desse episódio tão absurdo, é importante colocar em perspectiva as lutas contra o preconceito, a violência e pela construção da igualdade de direitos promovidas pela comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). Esse é o tema do filme sugerido esta semana: Milk – A voz da igualdade.

A película de 2008 conta a história real do ativista gay Harvey Milk (1930-1978). Narra as tentativas dele de tornar-se a primeira pessoa abertamente homossexual a ser eleita nos Estados Unidos. Depois de anos de trabalho no mercado financeiro, Milk mudara-se, em 1972, para Castro, bairro gay de San Francisco. Ali, abriu um pequeno comércio e iniciou a militância que o tornou amado por uns e odiado por outros.

Eram tempos de contracultura, amor livre e protestos contra a guerra do Vietnã (1955-1975). Um ano antes da chegada de Milk, John Lennon havia lançado o álbum Imagine, que se convertera em um estrondoso sucesso. Essa atmosfera hippie contrastava com a dura repressão aos bares gays por parte da polícia local e os constantes crimes de cunho homofóbico, frequentemente ignorados pelas autoridades.

Os tempos eram difíceis também no âmbito nacional. Em 1977, um movimento liderado por cristãos fundamentalistas de Miami promoveu ampla campanha publicitária intitulada “Salvem nossas crianças”. Anita Braynt, popular cantora da época, repetiu em inúmeros programas de televisão que os homossexuais tinham um estilo de vida pecaminoso e inaceitável. Eles representariam um perigo aos mais jovens. A campanha culminou na revogação de uma lei local que proibia a discriminação com base na sexualidade. A vitória deu força aos conservadores. Surgiram, em seguida, projetos de lei que proibiam homossexuais de ensinarem nas escolas públicas.

Contraditoriamente, a ascensão de líderes com discursos de ódio levou a comunidade LGBT a se unir e a ampliar sua consciência política. Manifestações pacíficas e boicotes foram algumas das armas utilizadas naquele momento. Não é possível dizer mais sem cair em spoilers (revelações do roteiro). Imprevisível, a trajetória de Harvey Milk nos cinemas rendeu oito indicações ao Oscar. Merecidamente, ganhou dois, o de melhor ator (Sean Penn) e melhor roteiro original.

Do ponto de vista histórico, não se pode esquecer que essa defesa da liberdade sexual esteve relacionada a lutas mais amplas pelas liberdades individuais, que se fortaleceram no mundo ocidental a partir do século XVIII. Apenas no século XX, porém, conquistas mais efetivas nesse sentido foram obtidas em alguns países.

Nesse momento especialmente doloroso, esse filme profundamente político ganha novo significado. Se a realidade mostra que há ainda muito por fazer, a história desse importante ativista gay lembra quanto já foi possível avançar na luta pelos direitos humanos.

Trailer abaixo – Diretor: Gus Van Sant

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