Por Paula Elise Ferreira Soares

Imagine se Hitler, o líder nazista, pudesse voltar do mundo dos mortos e reaparecesse hoje, andando pelas ruas de Berlim. O que pensaria, como seria recebido, qual impacto geraria na Alemanha contemporânea? Essas são, justamente, as perguntas que conduziram o longa-metragem alemão Ele está de volta.

A obra (disponível no Netflix) estreou em outubro de 2015 e é inspirada no livro de mesmo nome, escrito por Timur Vermes e publicado em 2012. Dirigido por David Wnendt e protagonizado por Oliver Masucci, como Hitler, a comédia narra as visitas do líder nazista a cidades alemãs atuais. Elas são acompanhadas por câmeras escondidas que registram a reação de pessoas comuns a esse inesperado encontro. Essa opção narrativa dá ares de documentário à película que, ao misturar ficção com realidade, apresenta um retrato preocupante da sociedade alemã atual.

Tudo começa com o despertar de Hitler (1889-1945) após sua morte. Envolto em fumaça, sujo e com dor de cabeça, o líder se assusta ao acordar em 2011 com a ausência de aviões e bombardeios que marcavam o cotidiano no final da Segunda Guerra. Seu primeiro contato é feito com crianças, que não reconhecem o líder e, consequentemente, não o cumprimentam com a conhecida saudação nazista. A partir daí, ele começa a andar pelas ruas de Berlim procurando informações sobre o novo cenário até se deparar com uma banca de jornais, onde encontrará material para estudar a nova realidade.

O líder do Terceiro Reich se espanta por ter despertado no século XXI, momento em que a Alemanha é governada por uma mulher, e por seus planos não terem sido concretizados. Nesse contexto, é descoberto por um fracassado produtor de TV que o considera um comediante que não consegue abandonar o personagem. A partir daí, o Führer e o produtor começam a percorrer a Alemanha filmando as reações de gente comum ao se deparar com a representação do líder nazista.

Para surpresa do diretor de “Ele está de volta”, em mais de 300 horas de filmagens pelas ruas apenas duas pessoas reagiram negativamente à presença do Hitler. Muitos posaram para fotos, fizeram a saudação nazista levantando os braços e, até mesmo, confidências sobre o que consideram os problemas da Alemanha atual. Dentre as dificuldades apontadas, destacaram a presença de imigrantes estrangeiros, como os africanos que, nas palavras de um cidadão, seriam responsáveis por rebaixar o QI médio dos alemães em 20%. Várias críticas são apontadas à democracia e muitos afirmam esperar uma “pessoa que faça a coisa certa”.

Certamente, um dos momentos mais marcantes é quando jovens torcedores de futebol são facilmente convencidos por Hitler a atacar um ator que faz comentários anti-nazistas e anti-nacionalistas. Nesse momento, os produtores do filme foram obrigados a interferir para impedir que o ator fosse machucado pelos torcedores. Em outra cena, um homem idoso, após pedir que as câmeras fossem desligadas, confessa concordar com todas as propostas que compunham a ideologia nazista. De fato, vários foram os cidadãos que afirmaram ser necessária uma nova política nacionalista agressiva, tal como proposta por Hitler no passado, para conter o avanço daqueles que são hoje considerados os novos inimigos da Alemanha e de toda a cultura e moralidade germânica: os imigrantes.

O filme, parte ficção parte documentário, evidencia que Hitler, em 2014, encontraria na televisão e na internet ferramentas excepcionais para a promoção da doutrinação que viabilizaria a consolidação do Terceiro Reich. Mostra como, mais uma vez, uma figura portadora de um discurso de ódio como ele poderia ganhar espaço nos dias de hoje. De forma realista, revela como lideranças de extrema direita, ao serem consideradas inofensivas, caricaturais e cômicas acabam conquistando espaço e alastrando sua proposta excludente. Na obra, a defesa da pátria, da família e da moralidade na política são novamente acionados por Hitler de forma eficaz para convencer os alemães da importância de sua liderança.

A pergunta que nos assombra, por fim, é: seria Hitler igualmente bem recebido na sociedade brasileira atual?

 

Glossário:

  • Terceiro Reich – expressão usada para designar a Alemanha durante o período nazista (1933-1945)
  • Führer – Em alemão, “condutor” ou “guia”. Palavra que Hitler utilizava para designar-se como líder da Alemanha nazista.
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