Por Rodolpho Gauthier Cardoso dos Santos e Paula Elise Ferreira Soares

Há alguns meses o país acompanhou o desenvolvimento do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Nesse período, houve o acirramento das disputas entre aqueles que se auto-intitulam pertencentes à direita ou à esquerda políticas, mostrando que os termos continuam mais vivos do que nunca. Em nome desses posicionamentos, ocorreram tristes episódios de violência nas ruas e, até mesmo, entre parentes e amigos. Por que essas identificações políticas mobilizam tantas emoções? Qual o significado contemporâneo de tais conceitos? Para começar a discussão, Viramundos se propôs a tentar defini-los por meio de dois posts. Neste primeiro, busca-se compreender o que significa, politicamente, estar à direita.

Os termos nasceram no início da Revolução Francesa, em 1789. Durante as reuniões para escrever a Constituição (Assembleia Nacional Constituinte), sentaram-se na parte direita do plenário os representantes que defendiam o direito de veto do rei Luís XVI em relação às decisões da Assembleia. De modo geral, temiam reformas sociais e políticas radicais. À esquerda, sentaram-se aqueles favoráveis à soberania plena da Assembleia e contra a possibilidade de veto do monarca. Alguns eram representantes populares (jacobinos) e propunham mudanças mais profundas, como a reforma agrária e ampliação do direito de voto.

Nesse primeiro momento, as diferentes correntes que representavam “as direitas” passaram a ser associadas à ordem, à segurança, à tradição e ao respeito à autoridade. Embora tenham surgido nesse contexto, os termos, como veremos, ganharam novos significados ao longo do tempo.

Logo após a queda do Antigo Regime, o intelectual francês Joseph de Maistre (1753-1821) condenou a revolução como um castigo divino que se abatera sobre uma população moralmente desregrada e cega pelo racionalismo. Para ele, apenas a restauração plena da monarquia absolutista, apoiada na Igreja Católica, seria capaz de proporcionar um governo estável ao país.

Nem toda direita do século XVIII, porém, era defensora do Antigo Regime. O filósofo e político britânico Edmund Burke (1729-1797) criticou duramente a violência extrema dos acontecimentos franceses, mas estava longe de ser um apoiador da monarquia inspirada nas Sagradas Escrituras. Tido com um dos pais do conservadorismo moderno, ele defendia limitações constitucionais ao poder real.

Para Burke, as mudanças deveriam ser graduais, respeitando as tradições, costumes e hábitos testados e construídos ao longo do tempo. “A raiva e o frenesi destroem mais em meia hora do que a prudência, a deliberação e a previdência conseguem construir em cem anos”, escreveu. Desse ponto de vista, os governantes deveriam adotar uma postura moderada e controlar não apenas suas próprias paixões, mas também as dos indivíduos. Segundo Burke, o contrato social é feito entre uma “comunidade de almas” envolvendo os vivos, os mortos e os que vão nascer. Todos esses elementos devem ser respeitados, o que explica sua estima pelas tradições e seus elogios à postura responsável do governante, que deveria pensar também naqueles que ainda chegarão ao mundo.

De acordo com o filósofo britânico, um dos principais erros dos revolucionários franceses foi acreditar ingenuamente que a razão poderia acabar com todos os problemas de uma sociedade. Na sua visão, ao buscar uma utópica sociedade perfeita baseada no iluminismo, tais líderes ignoravam a condição imperfeita dos seres humanos, que seriam incapazes de compreender profundamente uma realidade tão complexa e imprevisível. Cético, o filósofo defendia que não era função do Estado guiar a população rumo a um estágio ideal, mas manter a ordem existente. Caberia essencialmente aos governantes reconhecer a pluralidade de valores e objetivos de vida que cada indivíduo persegue por si na sociedade.

Contemporâneo de Adam Smith, Burke partilhava da sua perspectiva positiva a respeito da “sociedade comercial” (capitalismo) e da liberdade econômica. “O amor ao lucro, embora por vezes levado a excessos ridículos e viciosos, é a grande causa da prosperidade de todos os Estados”, escreveu. Crítico do mercantilismo, ele argumentava que não cabia ao Estado dirigir a economia, mas apenas garantir a paz, a ordem e a justiça, incluindo a preservação da propriedade privada e o cumprimento dos contratos. Não é de se espantar, portanto, que tenha abominado a tomada de terras pelos jacobinos franceses após a queda da Bastilha.

Para Burke, a “sociedade comercial” não é origem da corrupção e da exploração, tal qual denunciado pela esquerda. Ele a encara como um modo de vida superior porque surgiu de forma espontânea e livre, longe dos planejamentos racionais de algumas poucas mentes supostamente iluminadas. Desse ponto de vista, respeitar o livre mercado significaria respeitar a vontade humana de participar de um sistema estabelecido pela tradição e no qual prevalece a autonomia dos indivíduos. A “sociedade comercial” e a propriedade privada seriam expressão fundamental da natureza e da liberdade humanas.

De acordo com o cientista político italiano Norberto Bobbio (1909-2004), residiria justamente nesse ponto a principal diferença entre esquerdas e direitas democráticas contemporâneas. Enquanto a primeira teria como objetivo primário a luta contra a desigualdade e o desejo de justiça social, em detrimento de outros valores, a segunda enfatizaria a liberdade individual contra os excessos do Estado.[1]

Ao longo do século XIX, surgiram ideologias de esquerda que defendiam a organização do proletariado para fazer revoluções coletivas que acabariam com a desigualdade socioeconômica e criariam sociedades igualitárias. Esse movimento político está ligado ao aprofundamento da Revolução Industrial e à ampliação do proletariado nas principais cidades europeias. Destacaram-se, especialmente, o comunismo e diferentes tipos de socialismo.

Contra isso se insurgiram as direitas que acreditam no livre mercado como melhor forma de gerar bem-estar e prosperidade, ainda que de maneira desigual. Para teóricos desse campo, grosso modo, as diferenças de capacidade, determinação e inteligência entre os seres humanos são naturais e até mesmo necessárias. Nesse sentido, a construção de um mundo igualitário não apenas seria autoritária, por contrariar a natureza humana, como estimularia a preguiça e a mediocridade dos que se esforçam menos. Desse ponto de vista, um sistema baseado no mérito (meritocracia) seria capaz de construir uma sociedade muito mais produtiva e eficiente.

Como já foi afirmado, as direitas tendem a valorizar a liberdade individual. Essa posição dos conservadores é bem ilustrada pela frase da primeira-ministra britânica Margareth Thatcher (1925-2013), que argumentou certa vez: “não existe essa coisa de sociedade. O que existem são homens e mulheres, indivíduos e famílias”. Nos Estados Unidos, o direito de comprar e portar armas ajuda a compreender bem os pontos de vista divergentes. Enquanto políticos mais à esquerda, como o democrata Barack Obama, têm se posicionado firmemente contra isso por considerar algo potencialmente nocivo à vida coletiva, as direitas, apoiadas especialmente no Partido Republicano, não abrem mão do que consideram um direito individual inegociável.

É importante destacar ainda que, para as direitas, problemas políticos e sociais não podem ser dissociados, de modo geral, de questões morais ou religiosas individuais. Nesse sentido, a responsabilidade por um crime, como assassinato ou corrupção, por exemplo, é atribuída primeiramente à insuficiência moral da pessoa que o cometeu e não a alguma deficiência existente na sociedade.

Enquanto as esquerdas tendem a atribuir parte dos crimes a questões estruturais e à falta de oportunidades, as direitas enxergam com frequência a maldade (o rebaixamento moral) como impulsionadora de tais atos. Criticam as esquerdas por ignorar a ideia de responsabilidade individual. Daí o apelo frequente entre os eleitores desse segmento por algumas medidas de combater à violência como a redução da maioridade penal, a pena de morte e a ampliação do acesso às armas.

Ao contrário dos estereótipos, nem toda direita é conservadora em relação a aspectos privados. É possível, por exemplo, que alguém seja conservador politicamente e seja a favor do casamento gay, justamente por considerar esse assunto particular. Nesse caso, trata-se de um conservadorismo de cunho liberal, que preza a liberdade em questões de foto íntimo. Há que se reconhecer, entretanto, a existência de outra direita, bastante influenciada pela religião e crítica da liberdade de costumes. Existe nesse grupo uma tendência forte a condenar o aborto, o divórcio, a legalização da maconha e o casamento gay.

Na Europa e nos Estados Unidos, soma-se ao discurso de algumas direitas a rejeição aos imigrantes, especialmente os muçulmanos, que representariam uma ameaça à segurança, às tradições e à democracia por se originarem de uma cultura estranha aos valores ocidentais.

Não se pode deixar de destacar que, tal como aconteceu com as esquerdas no caso do stalinismo soviético (1927-1953), as experiências políticas de direita nem sempre foram marcadas pelo pluralismo de ideias e pela democracia. O nazismo, por exemplo, é tido por muitos cientistas políticos como um regime de extrema-direita. O Terceiro Reich foi um Estado totalitário que ignorava direitos individuais básicos dos cidadãos. Ainda assim, é classificado dessa forma, entre outros motivos, por ter perseguido a esquerda (dois milhões de comunistas morreram em campos de concentração), ter sido apoiado por grandes capitalistas e mantido, grosso modo, o respeito à propriedade privada dos adeptos do regime.

Da mesma forma, a ditadura militar brasileira (1964-1985), de viés anticomunista e conservadora, foi profundamente autoritária. Na ocasião, as direitas destruíram a liberdade alegando tratar-se de uma luta contra projetos discricionários inspirados na União Soviética. Ironicamente, porém, o programa econômico da ditadura brasileira pouco teve de liberal. Ao contrário do que aconteceu no regime autoritário chileno de Pinochet (1973-1990), o Estado brasileiro foi o principal responsável pelo desenvolvimento econômico no período.

Enfim, o conceito é bastante complexo por englobar diversas tendências de pensamento e comportamento que, não raro, são conflituosas. Além disso, é muito comum, por exemplo, que pessoas oscilem entre posições das direitas e das esquerdas, conforme o tema discutido. Os estereótipos, essencialmente reducionistas, frequentemente não dão conta de apontar essa pluralidade.

Deixando de lado as direitas reacionárias que existem no Brasil e no mundo, é possível identificar, entre inúmeras variações, os seguintes elementos comuns que, grosso modo, constituem as direitas democráticas contemporâneas:

  • valorização da responsabilidade individual, em detrimento de projetos e/ou argumentos coletivistas;
  • liberalismo econômico, ou seja, a ideia de que o Estado deve intervir o mínimo na economia, que possui leis naturais, bastando aos governos garantir essencialmente a segurança, a propriedade privada e o cumprimento dos contratos;
  • visão, de modo geral, positiva do sistema econômico contemporâneo (capitalismo de livre mercado) e sua configuração atual (status quo);
  • aceitação da natureza humana como essencialmente desigual e imperfeita, resultando na perspectiva de que todo esforço em direção à igualdade é inútil porque antinatural;
  • rejeição às mudanças bruscas e valorização da hierarquias, das tradições, costumes e valores, especialmente os religiosos;
  • rejeição aos projetos utópicos de Estado, principalmente aqueles que partem do racionalismo otimista e buscam criar um novo ser humano como base para uma sociedade coletiva igualitária;
  • perspectiva de que os problemas políticos e sociais não podem ser dissociados, de modo geral, de questões morais ou religiosas individuais;

 

Bibliografia básica:

  • João Pereira Coutinho. As ideias conservadoras
  • Luiz Felipe Pondé, Denis Rosenfield e João Pereira Coutinho. Por que virei à direita
  • Norberto Bobbio. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política.

 

Para saber mais:

[1] Há conservadores liberais, porém, que gostam de lembrar que não são monomaníacos, ou seja, não colocam nenhum valor como superior em relação aos demais, elegendo-os conforme as circunstâncias políticas. Reconhecidamente reativos, eles frequentemente são menos propositivos em termos ideológicos.

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