Por Paula Elise Ferreira Soares e Rodolpho Gauthier Cardoso dos Santos

Em texto anterior, discutimos o que representava no espectro das forças políticas a direita. A construção dessa posição política ocorreu por meio de uma relação, quase sempre de oposição, ao que se denomina de esquerda, tema deste artigo.

Foi a partir da Revolução Francesa (1789-1799) que se definiram tais matrizes políticas. Elas marcam as grandes divergências que existem em relação à forma como o poder deve ser partilhado, o papel do estado, como a riqueza deve ser repartida e como deve ser a distribuição do reconhecimento social. Essas matrizes se mantiveram ao longo de séculos e, mesmo tendo se alterado em alguns temas e conteúdos, ainda nos ajudam a compreender os debates sobre a vida social. Para compreender suas diferenças é necessário perceber o que cada grupo considera fundamental e inegociável.

Ainda sobre a Revolução Francesa, havia grupos diversos identificados como integrantes da esquerda política. Naquele momento, o termo se relacionava a todos aqueles deputados que eram contrários ao poder de veto do rei perante as decisões da Assembléia Nacional Constituinte. Entre eles, destacavam-se os girondinos e os jacobinos. Em comum, os dois grupos apontavam a necessidade de mudanças estruturais para a construção de uma sociedade mais inclusiva. Os jacobinos, porém, eram nitidamente mais radicais, pois propunham alterações muito mais profundas na organização do acesso à riqueza e à participação política na França.

O que se convencionou denominar esquerda, portanto, surgiu marcado pelo entusiasmo com as mudanças estruturais, com as revoluções, eventos considerados imprescindíveis para a construção da justiça social. Se as direitas nasceram críticas às grandes transformações e se tornam defensoras da prudência como mecanismo fundamental para se evitar a violência e as injustiças, as esquerdas se identificam pelo oposto, pois acreditam na necessidade da  mutação constante das regras sociais como forma de se garantir a adequação das leis e instituições aos anseios de todos.

O principal filósofo a ser apropriado pelos jacobinos franceses para justificar suas ações e posicionamentos foi o iluminista Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Em seu livro Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, ele confrontou a ideia de que a desigualdade entre os homens teria origem divina, tese típica do século XVIII e defendida pela nobreza e pelo clero. Também questionou o argumento, advindo da filosofia de Aristóteles, de que algumas pessoas, em função de seu caráter, estariam destinadas a obedecer e outras a comandar; algumas, em função de sua inteligência e outras qualidades, seriam governantes naturais e deveriam ter o resto da humanidade sob sua supervisão e condução.

Esses argumentos tradicionais, segundo Rousseau, eram utilizados para legitimar as desigualdades sociais e políticas, mas não iluminavam o problema da desigualdade entre os homens. Para o filósofo, a desigualdade nada mais seria do que uma construção humana. Sem negar a diversidade física e psíquica existente, o autor defendia que as diferenças de inserção dos homens na sociedade seriam fruto das contingências históricas. Em outras palavras, se algumas pessoas são compelidas à submissão e outras assumem o poder, tudo se deve ao contexto social e histórico que as induz a assumirem posturas e discursos específicos, de acordo com suas posições nas instituições. Dessa forma, a desigualdade não seria natural, mas sim uma construção que decorreria de processos históricos e da solidificação de costumes.

A partir de tais idéias de Rousseau se definiram as primeiras premissas teóricas do posicionamento das esquerdas: a certeza de que é preciso resistir às injustiças e às desigualdades; de que os costumes e tradições devem ser constantemente questionados para que novos anseios de novos grupos sejam inseridos na sociedade; de que as iniqüidades são construções históricas e não decorrências da natureza e de que o estado, instituição considerada como tradicionalmente opressora, deveria ser transformado em veículo para a construção da igualdade.

Os jacobinos, por exemplo, propunham que a reforma agrária, se tornada política de estado, seria capaz de desconstruir a desigualdade econômica que marcava a sociedade francesa do século XVIII. Além disso, argumentavam que a organização política mais justa seria aquela que garantisse a todos os setores da sociedade a possibilidade de participação política. Ou seja, defendiam o direito de voto (sufrágio) universal como ferramenta de inclusão social. Assim, percebemos, que em meio à Revolução Francesa, se consolidaram dois pilares que sustentariam a atuação da esquerda política: a defesa radical do igualitarismo social e econômico e a defesa da soberania popular.

Ao longo do século XIX, esses pilares estruturaram o posicionamento político de novos grupos que surgiram na Europa e passaram a integrar a esquerda. Tratavam-se dos anarquistas e dos socialistas, representados por pensadores como Bakunin, Proudhon, Fourier, Saint-Simon, Owen, Marx e Engels. Críticos profundos da sociedade que se estruturou com a consolidação do sistema capitalista, anarquistas e socialistas construíram análises sobre as relações de poder surgidas após a Revolução Industrial e sobre o que consideravam as promessas não cumpridas do pensamento liberal. Eram, em sua maioria, entusiastas das inovações tecnológicas do período, mas argumentavam que em lugar de fartura, integração, liberdade e tempo para o lazer, tais inovações estariam sendo utilizadas para ampliar as desigualdades social e econômica entre os homens. Contrária às teses de Adam Smith, a esquerda rejeitou energicamente a tese de que o livre mercado em si é capaz de produzir igualdade, justiça e felicidade. Nesse sentido, passou a criticar também o discurso da meritocracia, pois a desigualdade social e econômica não garantiria aos indivíduos igualdade de condições para competir.

Se a crítica ao capitalismo e a luta pela igualdade uniam anarquistas e socialistas, muitas eram as divergências acerca do papel que o estado deveria assumir na sociedade. Anarquistas defendiam que o estado deveria ser substituído por outras formas de organização social, uma vez que seria uma instituição que perpetuaria as opressões e impediria a soberania popular. Já alguns socialistas acreditavam que o estado deveria ser mantido como instituição capaz de atingir toda a sociedade e que, se bem conduzido, viabilizaria a construção de novos valores capazes de consolidar a justiça social. Assim, a partir do século XIX, parte da esquerda passou a aspirar ao fim imediato do estado, enquanto outra parte o entendia como instituição fundamental para conduzir transformações que garantissem a redução das desigualdades.

Em relação aos socialistas, é importante destacar as obras de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). Profundamente influentes, elas foram e continuam sendo apropriadas de forma diversa por diversos grupos ao redor do mundo. Entre os fundamentos da análise marxista, tem-se a luta de classes, ou seja, a compreensão de que a história das sociedades humanas seria marcada pelo conflito entre um grupo dominante, opressor, e outro dominado, oprimido. Segundo Marx, as grandes mudanças estruturais ocorreriam a partir dos embates entre essas classes. No caso do capitalismo, o conflito seria agravado pelo fato de esse sistema ser intrinsecamente contraditório e antagônico, pois, apesar de todo avanço tecnológico produzido, não seria capaz de gerar a riqueza e fatura para todos os grupos. Para o pensador alemão, o capitalismo geraria, de fato, a proletarização e a pauperização da maioria. O sistema acabaria por gerar, como afirmou no Manifesto do Partido Comunista, os elementos que motivariam sua destruição.

Movidos pelos princípios defendidos por Marx e Engels, muitos grupos passaram a agir em nome da instauração de um regime que consideravam mais justo – o socialismo – o que implicaria uma luta incessante contra o capitalismo. O mais conhecido, em função da longevidade de sua presença no poder, é o bolchevique, nome atribuído a revolucionários que, a principio liderados por Lênin (1870-1924) e mais tarde conduzidos por Stálin (1878-1953), chegaram ao poder na Rússia e posteriormente fundaram a União Soviética (1922-1991). Como se sabe, a experiência soviética marcou profundamente as disputas políticas ao longo da maior parte do século XX.

Em função da sua importância histórica, por durante muitas décadas se confundiu toda a esquerda com o comunismo ou socialismo soviético. Trata-se de uma visão profundamente reducionista desse campo que quase sempre relega todas as outras matrizes da esquerda ao esquecimento e ao desprestígio.

Apesar do discurso da universalidade, da inclusão, da igualdade e da justiça social, alguns grupos da esquerda que conseguiram alcançar o poder em diferentes países fizeram com freqüência grande uso da violência, da perseguição e da restrição da liberdade de homens e mulheres que se apresentavam como oposição. Basta lembrar, por exemplo, de experiências como o Terror Jacobino na França (1793-1794) e do período stalinista na antiga URSS (1922-1953).

Em função dessa incoerência entre discurso e prática, parte dos grupos de esquerda a partir, sobretudo da década de 1980, se propôs a pensar sobre novos projetos de sociedade e, ainda assentados nos pilares do igualitarismo e da soberania popular, trouxeram para essa matriz política bandeiras que até então tinham sido menos presentes. Ao longo do século XX e XXI diversas pessoas apontaram para outras relações de poder, de opressão que geravam desigualdades e injustiças e que afirmavam ter sido ignoradas pela esquerda que chegou ao poder em períodos anteriores. Tratam-se das discussões de gênero, de raça, das questões ambientais e dos direitos de outras espécies, como os demais animais. Sendo assim, parte da esquerda passou a denunciar a existência de relações hierarquizadas e violentas em outros setores da vida, como a sexualidade.

De toda forma, não podemos nos esquecer que o posicionamento político é sempre uma construção individual e, por isso, entre o que se definiria como direita e o que se definiria como esquerda encontramos uma multiplicidade de possibilidades. Um exemplo seria a esquerda católica, grupo que empunha a luta contra a miséria e pelos direitos humanos, mas se caracteriza pelo comportamento mais conservador em relação a temáticas como legalização das drogas, descriminalização do aborto, casamento gay e outros.

Apesar dessa multiplicidade, definimos, abaixo, uma lista de bandeiras que podemos considerar comuns à esquerda democrática atual:

  • definição da igualdade social, econômica, jurídica e política como valores primeiros a orientar as tomadas de decisão;
  • crença no papel do estado como instituição capaz de conduzir a redução das desigualdades sociais e econômicas, exceto no caso dos anarquistas;
  • descrença em relação ao mercado como instituição capaz de produzir a justiça social;
  • compreensão das desigualdades como decorrências de processos históricos e não fruto de definições transcendentais ou naturais;
  • desconfiança em relação às diversas formas hierarquização e de distribuição de poder;
  • defesa da ampliação da participação popular na construção das políticas públicas;

Por fim, vale destacar que, apesar de toda divergência existente entre posicionamentos de direita e esquerda, a existência dessa diversidade ideológica só é possível em um sistema político democrático. A aniquilação de qualquer uma dessas correntes fatalmente resultaria em prejuízos à sociedade, com inevitável empobrecimento das discussões públicas e perda de liberdades individuais. Nesse sentido, a justiça social, a liberdade e a igualdade apenas podem brotar na arena política marcada pelo debate, pela divergência e pelo conflito organizado promovidos por pessoas que coexistem defendendo projetos antagônicos.

Referências bibliográficas:

  • Vladimir Safatle. A esquerda que não teme dizer seu nome.
  • Norberto Bobbio. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política.
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